8 de Outubro: O orgulho de ser Nordeste e os pesares de ser Brasil

Por: Larissa Saiury Menezes Braga

                                                             foto: reprodução internet



Oficializado em 2009, todo dia 8 de outubro é comemorado, nacionalmente, o Dia do Nordestino. Esta data, homenageia a diversidade folclórica típica da região, a rica história e cultura nordestina. Sendo um dos maiores traços da identidade brasileira, será que a energia reverente desse dia é levada, para os demais dias do ano, pelo restante do país? Será que não é, apenas, o povo nordestino que sente essa data e reverência os seus? Conhecido pelas belíssimas paisagens naturais, suas culinárias, artesanatos, musicalidade e danças tradicionais, o Nordeste é constantemente colocado na “caixinha” do desprezo, da inutilidade e da miséria pelo restante do país.

 

Apesar de existir um senso comum, bem forte internacionalmente, de que o Brasil é um país gentil, a verdade é que não é. O preconceito e o ódio contra os seus — sejam eles indígenas, LGBTQI+, mulheres, negros ou nordestinos —, nos últimos tempos, tem tomado conta da mídia brasileira de uma forma tão expressiva e criminosa que hoje, os intolerantes, não fazem a menor questão de esconder suas discriminações.

 

A INTOLERÂNCIA

 

A xenofobia — tema central aqui — é o medo, aversão ou profundo repúdio em relação ao desconhecido (outras etnias e culturas). No contexto em que estiver inserida, há diferentes formas de ação dela e, muitas vezes, vem abraçada ao racismo.

 

“A ideia de que o oriental não é higiênico, que nordestino é burro, que os negros são agressivos, que muçulmanos são terroristas ou que religiosos de matriz africana são perigosos, são estigmas que marginalizam esses grupos sociais. Nota-se que essa rotulação é uma forma “sutil” de rejeição e não está relacionada somente ao medo do que é diferente. A xenofobia está diretamente relacionada ao preconceito e a intolerância, por isso, se assemelha tanto às demais formas de banimento social de determinados grupos.”

(Anne Amaral Hermes, advogada,
mestranda em Sociologia pela UFAL)

 

Falando, especificamente, da xenofobia contra os regionais brasileiros: é fácil encontrar brasileiros que, com suas visões pequenas e generalistas, colocam todos da região Norte e Nordeste na mesma “caixinha” preconceituosa. Nortistas, passam pelos mesmos preceitos que nordestinos.

 

Inclusive, a palavra nordestino não é problema, especificamente, mas sim de onde vem e o que vem com ela, o contexto. Não se é muito usada a palavra “sudestino”, por exemplo, é sempre “a paulista”, “o capixaba”. O Nordeste é feito de vários “Nordestes”: Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Paraíba, Piauí, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Sergipe são os plurais dessa região. Cada estado desse tem uma história, uma cultura, um sotaque e particularidades que os fazem únicos. Vê-los como uma coisa só apaga toda a singularidade da região.

 

Sem contar que o povo nordestino é visto, constantemente, como uma sub-raça, um povo miserável que, para todos os sentidos, são incapazes de conquistar algo, de ter ensino e internet, de ter um teto e um emprego, luz, água e comida na mesa; sob todos os aspectos, são “mortos de fome”, “burros”, “que falam outra língua” e “moram na roça”.

 

TEMPOS SOMBRIOS

 

Os últimos anos, 2018 e 2021 em especial, nos mostra — abertamente — em como o Nordeste é desrespeitado, humilhado, estereotipado e subestimado pelo restante do Brasil. 

 

Em 2018, houve um grande movimento de preconceito regional, nas redes sociais, alimentado por rixas políticas e a insatisfação, de sudestinos e sulistas, com o resultado das eleições na região Nordeste — o candidato (naquele momento) do PSL, Jair Bolsonaro, não venceu Fernando Haddad, do PT, em nenhum estado da região —, o que virou motivo para algumas pessoas expressarem, livremente, repúdio contra nordestinos. Sem muitas surpresas, o candidato eleito pelo Brasil, inclusive, faz parte da turma da xenofobia, reforçando, assim, a realidade conhecida muito bem por nascidos e moradores da região: existe um forte e enraizado preconceito regional no Brasil. E 2021, mais uma vez, nos mostrou isso:

 

Quem hoje, no Brasil, não sabe quem é Juliette Freire? A paraibana que despertou diversas emoções dentro e fora da casa mais vigiada do Brasil, ficou marcada pelo forte amor por seu estado, sua região e cultura, o que também a fez ser excluída e feita de piada entre colegas de confinamento. Com cenas difíceis de assistir, Juliette foi humilhada, menosprezada, ignorada, subestimada, caluniada e difamada dentro e fora da casa. O que isso tem a ver com o preconceito regional, com a xenofobia? Tudo! Se acha, facilmente, em matérias e posts específicos nas redes sociais, milhares de depoimentos de pessoas que passaram e passam pelo mesmo. Juliette não foi um caso à parte, ela faz parte de um todo; um todo que precisa, constantemente, provar seu valor e seu merecimento, que luta para ser ouvido e notado, que muitas vezes nem nota a maldade alheia por estar, o preconceito, tão naturalizado.

 

Além de tudo, o BBB21 escancarou algo não muito notado anteriormente: para sudestinos e sulistas, eles que determinam o que é ou não xenofobia, por isso nada nunca é. Muitos, inclusive, se camuflam no “minha mãe é nordestina”, “meu pai...”, “minha tia...” para tentar amenizar seus comentários. Reconhece essa prática?

 

A DUPLICIDADE

 

Ironicamente, os mesmos que destilam xenofobia são os que vão envaidecer-se, nas redes sociais, por estarem passando férias em alguma parte do litoral nordestino (assim como, também, fazem quando viajam para o exterior). Será que estas pessoas já pararam para pensar que cidades como São Paulo e Rio de Janeiro não seriam nada, absolutamente nada, sem o suor, sangue e lágrima nordestina? Será que, enquanto passam férias no Ceará, Bahia ou Pernambuco, eles sabem que Fortaleza, Salvador e Recife são, hoje, três das cidades mais desenvolvidas do Brasil? Que a economia da região Nordeste é a terceira maior do país? Certamente, não devem saber disso e muito menos sobre a importância histórica do Nordeste, na economia, por ter sido fonte de riqueza para o país por séculos. Igualmente, a importante contribuição para a cultura e história do país, com sua identidade própria e diversificada, trazendo personalidades como Paulo Freire, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna, Luiz Gonzaga, Maria Bethânia, Manuel Bandeira, Nelson Rodrigues, Dominguinhos, Caetano Veloso, Gal Costa, Chico César, Raul Seixas, Rachel de Queiroz, José de Alencar, Castro Alves, Jorge Amado, Madalena Caramuru, Zumbi Dos Palmares… entre tantos outros.

 

O QUE DIZ A LEI

 

Segundo a Lei n.º 7.716, de 5 de janeiro de 1989, praticar, induzir ou incitar a discriminação, ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, prevê pena de reclusão de um a três anos e multa.

 

O DIA DO NORDESTINO E O SEU SENTIMENTO CONTRADITÓRIO

 

A história nordestina não é pacifica, é uma história atravessada por conflitos. Em um dia para se pensar o que significa ser nordestino e o que representa essa data, há esse sentimento de contradição. Ser nordestino, no Brasil, traz a necessidade de rememorar, constantemente, a resistência do qual foram e são protagonistas. É saber que há esse potencial de luta e que isso, uma hora ou outra, deve romper esse apagamento que a história, hoje escrita, está os colocando. Embora ameaçada, a memória da resistência nordestina permanece viva.

 

Complemento:

 

A turma do Porta dos Fundos, recentemente, fez uma sátira sobre como seria se sudestinos fossem tratados como os nordestinos são, vale a pana assistir e ler os comentários:

SUDESTINO


                                                              foto: reprodução internet

Referências:

 

No NE, só vai receber verba quem apoiar governo. Correio, Campinas, 05, ago. 2019. Disponível em: https://correio.rac.com.br/_conteudo/2019/08/mundo/853984-no-ne-so-vai-receber-verba-quem-apoiar-governo.html. Acesso em: 18 set. 2021.

 

ANDRADA, Alexandre; FELIZARDO, Nayara. Bolsonaro despreza os nordestinos. E ele não está sozinho. The Intercept Brasil, São Paulo, 13, ago. 2019. Disponível em: https://theintercept.com/2019/08/12/bolsonaro-despreza-nordeste-nordestinos-economia/. Acesso em: 18 set. 2021.

 

Karol Conká escancara xenofobia contra nordestino: “Legitimação de um discurso de ódio”, diz advogada. Cada Minuto, Alagoas, 22, fev. 2021. Disponível em: https://www.eufemea.com/2021/02/karol-conka-escancara-xenofobia-contra-nordestino-legitimacao-de-um-discurso-de-odio-diz-advogada/. Acesso em: 19 set. 2021.

 

CETRONE, Camila. Xenofobia: “Zombaram meu sotaque e perguntaram se na minha terra tinha Internet”. iG Delas, 09, fev. 2021. Disponível em: https://delas.ig.com.br/comportamento/2021-02-09/xenofobia.html. Acesso em: 19 set. 2021.

 

GIANOLLA, Giulia. Karol Conká e a ‘educação’ nordestina: foi xenofobia?. Guia do Estudante, São Paulo 05, fev. 2021. Disponível em: https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/karol-conka-e-a-educacao-nordestina-foi-xenofobia/. Acesso em: 19 set. 2021.

 

MONTEIRO, Ayslan. Como Juliette me fez repensar minha vivência nordestina fora do Nordeste [uma thread]. 30 mar. 2021. Twitter: @ayslanmonteiro. Disponível em: https://twitter.com/ayslanmonteiro/status/1376896069234216961?s=08. Acesso em: 20 set. 2021.

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