As dificuldades do acesso ao ensino em tempos de pandemia

Por: Fabian Bonifácio Costa

(Gabriel Maia durante entrevista para este Blog, com a pedagoga, professora e graduanda em psicopedagogia, Clara Rianelli)

Diante da suspensão das aulas presenciais em decorrência da pandemia provocada pelo COVID-19, nem todos os estudantes brasileiros possuem condições dignas de acesso ao ensino remoto, e quando falamos em ensino básico, que é a base de formação formação de qualquer cidadão, a situação que não era muito boa sem a pandemia, apenas se agravou com a sua chegada, promovendo assim, um verdadeiro êxodo de estudantes das salas de aula. E a desmotivação desses pequenos estudantes, se dá pela falta de materiais básicos como um bom tablet, notebook ou celular, para que possam fazer as suas atividades.

Conversei com a pedagoga, professora e graduanda em psicopedagogia, Clara Rianelli, sobre essa questão que tem afetado alunos da rede pública e particular de ensino, seja pela falta total desses materiais ou por questões ligadas a péssima qualidade da internet, ou mesmo por um ambiente hostil dentro de casa. Acredite, segundo a pedagoga, muitas crianças tiveram o psicológico afetado por brigas e e pela falta de paciência dos próprios pais em lhes ensinar as tarefas mais básicas.

 

Gabriel Maia: Clara, você que convive diariamente com a realidade de crianças através do ensino básico, sente na pele a tristeza de ver tantas crianças desassistidas pelo poder público ou desamparadas dentro do próprio lar?

Clara Rianelli: Sim, totalmente. Enquanto professora, pedagoga e ser humano, observo de perto a angústia de muitos colegas professores em ver a triste realidade do ensino básico em nosso país diante da crise sanitária que estamos enfrentando. É uma realidade que fere a todos nós, pois estávamos acostumados a lidar diariamente com as crianças, ensinando-as e também participando de suas realidades pessoais. Enxergamos coisas que muitas vezes as próprias mães por desleixo ou falta de experiência não conseguem ver em seus filhos. E diante do afastamento que foi e ainda é necessário, nós acabamos por perder essa conexão direta com a realidade de cada criança.

E ainda existe crianças que reclamam que as próprias mães ou pais não os ensinam as atividades mais básicas, como por exemplo, contas de somar e subtrair. E a nossa preocupação quanto a essa infeliz situação, é que isso não acontece apenas em ambiente humilde, tem muitos lares privilegiados que os pais fazem a mesma coisa. E outro ponto fundamental quanto a essa questão, é que temos que ver também o lado dos professores, que quanto mais distantes dos grandes centros urbanos, encontram dificuldades extremas para poder ministrar aulas. Ou seja Gabriel, estamos falando de uma realidade que afeta professores e alunos, pois não adianta o professor ter um ótimo aparelho para se conectar com seus alunos e a internet não funcionar. 

Gabriel Maia: Clara, em relação a volta às aulas, vimos recentemente o Ministro da Educação, Milton Ribeiro, defender o retorno presencial às aulas devido ao grande prejuízo causado aos alunos da rede básica de ensino, você concorda com o Ministro?

Clara Rianelli: Em relação ao prejuízo quanto ao ensino remoto, estamos diante de um grande paradoxo, pois, o prejuízo em questão não afetou apenas a rede básica como sabemos, isto percorre todas as redes, até chegar nas universidades públicas e privadas. O problema do ensino remoto não é o formato, e sim a sua logística de distribuição através dos governos.  Vimos que muitos governadores e prefeitos liberaram créditos para que os docentes pudessem comprar um aparelho digno para ministrar aula, e até facilitaram a compra de pacotes de internet por um determinado período, atendendo assim as expectativas positivas em relação aos docentes e alunos.

Porém, um retorno obrigatório neste momento, quando a larga maioria da população sequer tomou a primeira dose, não servirá para muita coisa. Veja o caso recente da liberação feita por prefeitos e governadores, o que aconteceu após essa liberação? Foram obrigados a fechar as portas das unidades de ensino novamente. Crianças e funcionários se contaminaram, criando um ambiente de medo e de total apreensão. Essa questão ainda envolve diretamente o fator psicológico das crianças, pois estamos falando de meninos e meninas que viram seus pais, avós, amigos e amigas morrer. É notável que uma parcela da sociedade, sobretudo os negacionistas da doença, liberaram seus filhos para brincar nas ruas, como se não houvesse pandemia. Mas, os pais que tem juízo e que prezam pela saúde de seus filhos, ainda os mantém em casa, temendo serem vítimas da doença.

E por fim, temos que citar aquelas crianças que tiveram covid-19, e ficaram com sequelas. Como abordar o retorno sob o ponto de vista psicológico para essas crianças? É um desafio constante que devemos discutir e refletir diariamente em nosso ofício. O prejuízo já foi causado, e não será retornando obrigatoriamente que iremos solucionar a situação da defasagem, ou seja, temos que pensar sempre na qualidade do ensino, e não apenas no formato ofertado.

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